Regeneração:
Uma Obra Divina
Rev.
HermanHoeksema
A
verdade da condição sem esperança do homem implica que esse
renascimento
ou regeneração2 não
pode ser estabelecido por alguma obra do
homem
ou pelo poder da vontade do homem. Essa impossibilidade já está
implícita
no termo renascimento ou regeneração. Assim como nenhum homem
pode
ser a causa eficiente do seu nascimento natural da carne, tampouco pode
ser
a causa eficiente do seu segundo nascimento ou concepção espiritual. O
homem
não pode renovar a si mesmo.
Isso
está implícito também na condição natural do homem. Quando ele
ama
as trevas e não a luz (João 3:19), ele certamente não fará nenhuma
tentativa
de vir para a luz. Antes, ele evitará, desprezará e odiará a luz. Quando
por
natureza está em tal condição que não pode ouvir a palavra de Cristo, por
sua
própria surdez ele está certamente excluído de todas as influências
externas
que poderiam induzi-lo a entrar no reino de Deus. Quando a
mentalidade
da carne, com a qual o homem nasce por natureza, é sempre
inimizade
contra Deus, de forma que ele não pode se submeter à lei de Deus,
sim,
não pode se sujeitar a essa lei (Rm. 8:5-7), é claro que seu coração estará
fechado
contra a influência do amor de Deus em Cristo Jesus. Para o homem
natural
não existe nenhuma esperança de melhora ou reforma no caminho da
educação,
no caminho de um exemplo melhor, ou no caminho de exercer-se
na
disciplina da virtude externa. Dessa forma, ele nunca entrará no reino de
Deus.
Mas
Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que
nos
amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou
juntamente
com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente
com
ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus (Ef. 2:4-6).
O
que é impossível para os homens é possível para Deus (Lucas 18:27).
Ele
é capaz de criar no homem um coração puro e renovar nele um espírito
reto
(Sl. 51:10). Ele é capaz de circuncidar o coração do seu povo e sua
semente,
para que amem o Senhor Deus deles com toda a sua existência e
vida
(Dt. 30:6). Ele é capaz e está disposto a dar-lhes um coração para
conhecerem
ao Senhor; eles então serão o seu povo, e ele será o Deus deles.
Eles
se voltarão para ele de todo o coração (Jr. 24:7).
Ele
está disposto a dar-lhes um coração e colocar um espírito novo
dentro
deles. Ele tirará o coração de pedra deles e lhes dará um coração de
carne,
para que possam andar nos seus estatutos e guardar as suas ordenanças.
Assim,
eles serão o seu povo, e ele será o Deus deles (Ez. 11:19, 20). Ele
aspergirá
sobre eles água pura, para que sejam purificados de sua imundícia e
de
todos os seus ídolos. Ele lhes dará um novo coração e colocará um novo
espírito
dentro deles. Ele tirará o coração de pedra da carne deles, e lhes dará
um
coração de carne. Dessa forma, eles andarão em seus estatutos e guardarão
os
seus juízos para cumpri-los (Ez. 36:25-27).
Contra
esse pano de fundo, os apóstolos pregaram o evangelho do
reino
num mundo de trevas, enfatizando a necessidade dessa mudança radical
através
da qual o homem é transladado primeiro na própria profundeza de sua
existência
interior e, então, também em toda a sua vida consciente e andar
público
no mundo. Algumas vezes os apóstolos referem-se a essa mudança
radical
nos homens como renascimento ou regeneração:
Segundo
a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que
fôssemos
como primícias das suas criaturas (Tiago 1:18).
Bendito
seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua
grande
misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela
ressurreição
de Jesus Cristo dentre os mortos (1Pe. 1:3).
Esse
renascimento ou regeneração, portanto, é a obra do Deus e Pai de
nosso
Senhor Jesus Cristo. Ele realiza essa obra de acordo com sua grande
misericórdia,
uma misericórdia que livra o seu povo da miséria do pecado e da
morte,
e que é chamada “grande” porque não simplesmente liberta da miséria
para
fazer o seu povo voltar ao seu estado e condição original, mas exalta-os
acima
daquele estado, fazendo-lhes serem participantes de uma nova, celestial
e
gloriosa vida.
Por
conseguinte, essa regeneração é mediada através da ressurreição de
Jesus
Cristo dentre os mortos, pois não somente é essa ressurreição de Cristo
o
fundamento jurídico para a regeneração e a certeza da salvação deles, mas é
também
o princípio da regeneração de todos os crentes. Assim como Cristo
em
sua ressurreição não retornou à terra, mas foi vestido com uma vida mais
sublime
e celestial, assim os filhos de Deus recebem em seu renascimento o
princípio
de uma nova vida, a mesma vida com a qual Cristo levantou do
sepulcro.
Porque está fundamentada na ressurreição de Cristo, essa
regeneração
é também o princípio de uma esperança viva, que se desenvolve
na
esperança da realização e revelação futura da salvação completa. O eleito
renascido
se tornou peregrino na terra, pois recebeu o princípio de uma vida
celestial
através da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos. Em virtude
desse
princípio, ele não busca as coisas que são de baixo, mas aquelas que são
de
cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus (Cl. 3:1, 2).
Fonte: Reformed Dogmatics – Volume
2, Herman Hoeksema,
Reformed Free Publishing Association, pg. 26-9