Pode o Cristão Tomar Bebida Alcoólica? – Parte 2



Pode o Cristão Tomar Bebida Alcoólica? – Parte 2

Na primeira parte deste estudo, procurei comprovar que a Bíblia não condena o consumo moderado de álcool, apenas seus excessos. Na segunda parte deste artigo, falaremos sobre as bebidas alcoólicas atuais (fermentadas e destiladas) e sua equivalência / discrepância com o vinho e a bebida forte dos tempos bíblicos. Abordaremos também a questão de como o álcool pode ou não abalar nosso testemunho cristão, e de como é visto por cristãos de outras culturas.
Vinho ou Tang?
Um dos argumentos mais comuns por parte dos irmãos abstênios é o de que o vinho e a bebida forte dos tempos bíblicos eram diferentes dos vinhos e bebidas fortes atuais. Alguns exegetas que pregam a favor da abstenção de álcool negam que o vinho e a bebida forte nas Escrituras tinham poder embriagante. Mas as advertências de cautela e os diversos episódios de embriaguez narrados na Bíblia (Gn. 9:20; Prov. 20:1;Is. 5:11, 22; Is. 28:7; 1 Cor 11:21; Ef 5:18, entre outras) são demasiadamente abundantes para que possamos fechar nossos olhos para o fato de que as bebidas dos tempos bíblicos tinham o potencial de embriagar.
Como procurei esclarecer na primeira parte deste artigo, a “bebida forte” mencionada na Bíblia podia alcançar, no processo de fermentação natural, um nível de 14% de teor alcoólico, equivalente ao dos vinhos secos atuais, pelo menos três vezes mais alto do que uma cerveja comum (5%). Qualquer tribo indígena pode ensinar a tais exegetas que é possível produzir bebidas fortes a partir da fermentação natural não somente da uva, como também da cana de açucar, do abacaxi e até mesmo da casca de batata. Isso sem nenhuma intervenção do homem que vá além de armazenar o extrato por algumas semanas.
Alguns exegetas apresentam dados incorretos na construção de sua “premissa da Lei Seca”, ao afirmar que os judeus diluíam o vinho em água na proporção de três porções de água para uma porção de vinho, e alguns chegam a ensinar a proporção de dez porções de água para uma porção de vinho (!!!). Em primeiro lugar, shekar (bebida forte) não era diluído em água. Yayin (vinho) era diluído em água, mas como afirmei no artigo anterior, a proporção era justamente o contrário: três porções de vinho para uma de água. De acordo com a Enciclopédia Judaica, isso é o que a literatura rabínica indica.
E o caro leitor, se usar seu senso crítico, pode determinar se um suco de uva “ralo”, mais parecido a “Tang” do que a vinho, teria o poder de causar os incidentes envolvendo embriaguez narrados na Bíblia, e mereceria tantas advertências no texto sagrado quanto aos perigos e inconveniências de seu consumo abusivo.
Uma análise imparcial do que a Bíblia nos diz, certamente nos levará às conclusões inevitáveis de que: 1) o vinho e a bebida forte da Bíblia tinham o poder de embriagar; 2) as Escrituras advertem quanto ao abuso destas bebidas, porém 3) não proíbem seu consumo.
Bebidas Fermentadas versus Bebidas Destiladas
Há um detalhe, entretanto, a ser observado nos dias atuais. Hoje em dia, além de bebidas fermentadas (cerveja, vinho, saquê, champagne, alguns tipos de cidra, etc.), há também bebidas destiladas (cachaça, conhaque, tequila, vodka, rum, etc.).
Em média, o teor alcoólico das bebidas fermentadas varia entre 5%  e 14%, como nos tempos bíblicos. Entretanto, alguns vinhos contemporâneos passam por um segundo processo de fermentação, pela adição de açúcar, podendo chegar até 25%.
Já as bebidas destiladas podem chegar a 90% de teor alcoólico (no caso do absinto e do uísque). O teor alcoólico da cachaça varia entre 48% a 56%  e o da vodka 40%.
O teor alcoólico de algumas bebidas destiladas (como o uísque, por exemplo) são demasiadamente altos para serem consumidas sem causar nenhum dano ou alteração no organismo da pessoa que o ingere. Antes de consumir qualquer tipo de bebida, é prudente verificar sua graduação alcoólica, e sempre preferir as bebidas fermentadas, por seu baixo teor alcoólico.
O Vinho em Outras Culturas
O grande reformador alemão Martinho Lutero disse certa vez: “Deus reformou a Igreja enquanto eu tomava cerveja.”
Na Europa, no Chile e em outras partes do mundo, muitos crentes genuínos possuem uma pequena adega em sua casa. A propósito, diga a um irmão português que ele não pode beber um bom Vinho do Porto durante o jantar e ele dirá que você é o herege…
Já tive a oportunidade de ceiar com missionários no meio da selva amazônica com vinho autêntico, ou seja, suco de uva fermentado. O pioneiro deste trabalho entre os índios Parecís e Nambiquaras é um herói na fé que Deus trouxe da Holanda para evangelizar estes povos indígenas. Ele é fruto do mesmo avivamento que produziu irmão André e Corrie Ten Boom. O tabu da Lei Seca parece ser uma prática adotada pelas Igrejas fundadas por missionários americanos. Entre muitos cristãos europeus, não há tabus para o consumo de álcool.
Quando viajamos e temos contato com outras culturas, acabamos nos deparando com outras formas de adoração e práticas diferentes da nossa. E pelo que Deus faz por meio destas pessoas, somos obrigados a abrir nossa cabeça e entender que aquilo que é cultural não possue valor absoluto. Assim como o álcool, coisas como o uso de cabelo comprido por homens, uso do véu pelas mulheres, mulheres pregadoras e música secular devem ser administradas de acordo com o contexto em que vivemos, mas jamais devemos agregar a estas coisas tabus absolutistas.
Tomar Álcool Abala Meu Testemunho?
A embriaguez destrói o testemunho de qualquer santo. Já no caso do consumo moderado de álcool, dependerá da situação e do contexto em particular.
Particularmente, tenho uma relação muito próxima com alguns líderes do Narcóticos Anônimos aqui da região, alguns dos quais se tornaram discípulos e irmãos na fé. Para um ex-viciado em drogas ou em álcool, qualquer tipo de bebida é um tipo de droga. Portanto, ensinamos a estes discípulos que se abstenham totalmente de álcool para seu próprio bem (assim como ao diabético que se abstenha de doces e quitutes). Não temos o costume de tomar vinho em público, por respeito a estes irmãos (Rm 14:21). A Ceia do Senhor é feita com suco de uva, por consideração aos que não podem tomar vinho, mas a estas pessoas não é nenhum segredo que compartilhamos o vinho na intimidade de nossas casas.
Nossos discípulos estão sendo formados sem nenhum tabu com relação ao álcool.  Paulo é claro ao dizer que onde falta o auto-controle, tabus se fazem inúteis, somente patrocinam máscaras (Col 2:20-23). E onde não há tabus, não há ofensa.
O preconceito maior com relação ao álcool se dá mais por parte dos “evangelizados” do que por parte dos incrédulos ou novos convertidos.  A solução para evitar o escândalo é não consumir vinho ou cerveja em público, mas na intimidade de nossas casas, ao mesmo tempo em que somos sinceros quanto à nossa posição com relação ao tópico.
Conclusão
Não tomo cerveja e compro uma garrafa de vinho ou champanhe muito de vez em quando. Minha motivação ao escrever este artigo não é justificar minhas “apetites pessoais”, pois posso passar anos sem colocar uma gota de álcool na boca. Como dito na introdução da primeira parte deste artigo, minha intenção é somente buscar a verdade de forma imparcial, promovendo o diálogo e a tolerância entre irmãos que possuem uma prática diferente com relação ao álcool.
Como neto de uma matriarca “católica praticante”, por muitos anos deixei de comer carne na chamada “Sexta-Feira da Paixão”. Cresci ouvindo que era pecado comer carne neste dia. Sempre comi carne vermelha, mas por causa do dogma que havia sido incucado em minha mente, na sexta-feira da paixão toda carne se tornava profana para mim. Quando conheci a Jesus, este dogma caiu por terra, e hoje posso comer carne em qualquer dia do ano sem me escandalizar.
Paulo afirma que “nenhuma coisa é de si mesma impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura” (Rm 14:14). Muitas vezes determinamos se algo é santo ou profano pelas lentes dos dogmas que foram incucados em nossa mente. Não obstante, muitas coisas que a religião rotula na verdade são elementos neutros, cujo benefício ou malefício se determina pelo bom ou mau uso que alguém faz destas coisas.
Em Mt. 5:29, Jesus jamais disse “arranca teu olho direito” de forma generalizada, mas sim “arranca teu olho direito [somente] se ele te faz tropeçar”. Se temos um problema com nosso olho direito, não temos o direito de impor que todos se façam caolhos juntamente conosco para entrar no Reino de Deus.
Devemos deixar de lado a teologia do “não toques, não manuseies” para adotar a teologia do “examine-se a si mesmo” para determinar nossos limites pessoais e exercer o domínio próprio nas áreas em que somos débeis. O papel da Igreja é pregar a verdade, e discipular na base do um a um (marcação individual, como no futebol), conhecendo-nos uns aos outros, apoiando-nos e exortando-nos individualmente nas áreas em que necessitamos de libertação, sem impor jugos desnecessários aos demais.
Se o álcool faz alguém tropeçar, seja por motivo de consciência ou dependência, é santo e agradável ao Senhor que tal se mantenha abstênio. Já aos que tomam vinho ou cerveja, minha recomendação é que o façam moderadamente desde que suas consciências o permitam fazê-lo (pois tudo o que provêm de dúvida é pecado – Rm 14:23), sempre exercitando o domínio próprio e tomando o cuidado para não colocar o irmão débil em uma situação de tropeço. E, o mais importante, que aquele que bebe, não julgue o que não bebe. E o que não bebe, que não julgue o que bebe com moderação.

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