LIVRE ARBÍTRIO, TER OU NÃO TER, EIS A QUESTÃO!



Este é um tema que tem levantado muita discussão, visto que as opiniões são as mais variadas possíveis, mas para que possamos entender o Livre Arbítrio é preciso antes de qualquer coisa entender o sentido lato senso da palavra. Livre Arbítrio nada mais é que depender única e exclusivamente da sua própria vontade na resolução de alguma coisa seja um parecer, uma opinião, uma escolha, etc. Entretanto não estamos falando do Livre Arbítrio no seu sentido geral, mas sim no que se refere à espiritualidade e, para isso precisamos analisá-lo a partir de quatro pontos indispensáveis os quais vos passo a expor.
Em primeira análise precisamos avaliar o livre arbítrio do homem em seu estado de inocência, ou seja, quando o homem ainda não tinha pecado. A Confissão de Fé de Westminster diz que: “O homem no estado de inocência tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus”. Santo Agostinho um dos pais da Igreja dizia que o homem vivia na situação de “Posse non peccare”, ou seja, o homem tinha o poder de não pecar. Foi desta forma que Deus criou o homem: santo, perfeito, imaculado e inocente. Ainda não havia no homem semente alguma do pecado; nenhuma corrupção; nenhuma depravação. Porém este estado do homem poderia mudar de uma hora para outra de sorte que pudesse decair dessa posição. (Ec 7.29)
Eis a questão, o homem tinha ou não tinha livre arbítrio antes de pecar? Muitas são as teorias acerca desta questão. Alguns negam que Adão teve livre arbítrio antes do pecado e outros aceitam que ele teve livre arbítrio antes do pecado. O grande reformador João Calvino, aceitava que Adão antes da queda teve livre arbítrio o que podemos verificar nas Institutas, livro I, capítulo XV, sessão 8: “... Nesta integridade, o homem usufruía de livre-arbítrio, mercê do qual, caso quisesse, poderia alcançar a vida eterna... portanto, Adão podia manter-se, se o quisesse, visto que não caiu senão de sua própria vontade... a escolha do bem e do mal lhe era livre... em sua condição original o homem foi totalmente diferente de toda sua posteridade, a qual, derivando a origem do corrupto, dele contraiu mácula hereditária. Ora, todas as partes da alma, uma a uma, lhe estavam conformadas à retidão, e firme se estabelecia a sanidade de sua mente, e sua vontade era livre para escolher o bem”.
Em segunda análise precisamos avaliar o livre arbítrio do homem em seu estado de pecado, ou seja, no momento em que o homem cedeu aos seus caprichos e escolheu fazer o que era mal. A Confissão de Fé de Westminster afirma ainda que: “O homem caído em um estado de pecado perdeu totalmente todo poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanha a salvação”. Santo Agostinho dizia que neste estado o homem vive na situação de “Non posse non peccare”, ou seja, o homem agora “não pode não pecar”, neste estado o homem só consegue e só quer pecar. É justamente neste estado que o homem torna-se escravo do pecado e quer sempre fazer a sua vontade. Por causa do pecado o homem tornou-se totalmente avesso ao que pertence a Deus e morto no pecado e, assim, é incapaz de... converter-se ou mesmo preparar-se para isso, pois assim como diz a palavra de Deus “Porque o salário do pecado é a morte, ...” (Rm 6.23) O homem no estado de pecado não deseja ser santo, nem regenerado, nem tampouco abandonar o pecado, ele não deseja abandonar as suas paixões nem seus vícios e para ele o pecado é um troféu. Quantas vezes você já não ouvia frases como essas: Rapaz ontem eu derrubei duas grades de cerveja e mais tivesse! Rapaz no show de ontem eu peguei duas gatas lindíssimas!
Calvino diz ainda no mesmo lugar das Institutas indicado acima: “... os que professam ser cristãos, e ainda buscam livre-arbítrio no homem perdido e imerso em morte espiritual, corrigindo a doutrina da Palavra de Deus com os ensinos dos filósofos, estes se desviam totalmente do caminho...”
O terceiro ponto que devemos observar é o homem no estado de Graça, neste ponto diz a Confissão de Fé de Westminster: “Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom”. Nesta declaração confessional podemos observar três coisas: 1) É Deus quem converte o pecador; 2) É Deus quem liberta o pecador e 3) É Deus quem habilita o pecador a querer e fazer aquilo que é do seu agrado. Todos estes passos são de ação exclusiva de Deus, sem nenhuma cooperação do homem, ou seja, o homem é convertido, libertado e habilitado por Deus tornando-se um agente passivo na salvação. O homem mesmo depois de regenerado por Deus não consegue fazer “o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau”. E isto acontece “por causa da corrupção, ainda nele existente”, assim como nos alerta a palavra de Deus "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca." (Marcos 14 : 38)
O quarto e último ponto que devemos observar é o homem no estado de glória, é justamente neste ponto como diz a Confissão de Fé de Westminster que “... a vontade do homem se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só”. É apenas neste estado que as coisas serão diferentes para o homem, pois, na glória, a vontade do homem crente será perfeita e imutavelmente livre para o bem só. Santo Agostinho diz que neste estado o homem viverá novamente a condição de “Posse non peccare”. O homem no estado de glória será preservado por Deus para não mais pecar. No Éden, esta vontade era mutável, ou seja, o homem podia pecar ou não pecar. Mas no céu sua vontade será imutável. Ou seja, o homem não terá vontade de pecar, e assim jamais cairá. Ele será perfeito e aperfeiçoado em santidade para sempre (Jo. 8.34,36; Ef 4.13; Fp 2.13; Cl 1.13; 1Jo. 3.2)
Na inocência o homem tinha livre-arbítrio; No pecado o homem perdeu o livre-arbítrio; Na graça o homem recebe o dom do livre-arbítrio. Você pode até escolher a roupa que vai vestir; o que vai comer; se vai trabalhar hoje ou não; entretanto no que se refere à salvação somos totalmente dependentes de Deus, carecendo desta forma da sua infinita graça que nos habilita a querer e fazer o que é espiritualmente bom.
Pr. Paulo Uchôa

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