O evangelho verdadeiro e sua singularidade.A essência do Evangelho de Paulo

Após se apresentar como apóstolo de Cristo, Paulo repudia
vigorosamente qualquer evangelho que não se harmonize com
o que tem pregado, realçando que o aprendera do próprio
Cristo, sem mediação de ninguém, nem mesmo dos apóstolos
de Jerusalém.
SAUDAÇÕES INICIAIS
GÁLATAS 1.1-5
1. Paulo, apóstolo enviado, não da parte de homens nem
por meio de pessoa alguma, mas por Jesus Cristo e por
Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos,
2. e todos os irmãos que estão comigo, às igrejas da Galácia:
3. A vocês, graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do
Senhor Jesus Cristo,
4. que se entregou a si mesmo por nossos pecados a fim de
nos resgatar desta presente era perversa, segundo a vontade
de nosso Deus e Pai,
5. a quem seja a glória para todo o sempre. Amém.
O autor da carta, Paulo, apresenta-se logo no início como
“apóstolo enviado, não da parte de homens nem por meio de
pessoa alguma, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai...” (1).
o evangelho verdadeiro e
sua singularidade
1.
18 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO
Conforme visto no estudo sobre os aspectos introdutórios, Paulo
vinha sofrendo ataques de falsos mestres que, atuando entre
as igrejas da Galácia, diziam que ele não tinha a mesma posição
e autoridade dos apóstolos de Jerusalém. Por isso, a fim de que
sua epístola não fosse recebida como uma carta qualquer, vazia
de credibilidade e poder e, assim, fosse de pronto desprezada,
Paulo, de antemão, enfatiza aos seus leitores que o que têm em
mãos são ensinos procedentes de um apóstolo verdadeiro;
alguém que recebeu essa função do Filho de Deus e do próprio
Pai. Nisto, entre outras coisas, ele se diferenciava daqueles que,
já em seu tempo, se autodenominavam apóstolos, movidos
apenas pelo desejo de se destacar entre os crentes comuns e,
assim, enganá-los (2Co 11.13; Ap 2.2).
No v. 1, Deus Pai é mencionado como aquele que ressuscitou
Jesus dentre os mortos. A menção da ressurreição de Cristo é
importante aqui porque foi o Cristo ressurreto quem
diretamente investiu Paulo no ofício apostólico (Rm 1.5).
Ademais, a ênfase na ressurreição era sempre conveniente
numa época em que os homens estavam tão familiarizados
com o pensamento grego que, em algumas de suas
manifestações, considerava a matéria má, a ponto de mais tarde,
dentro de uma roupagem cristã, negar a encarnação do Filho
(1Jo 4.2; Hb 2.14) e a ressurreição física (1Co 15.12; 2Tm 2.18).
Ao escrever a Carta aos Gálatas, Paulo estava na companhia
de um grupo de irmãos. Não sabemos onde o Apóstolo estava
quando escreveu essa epístola e, portanto, nem de que cidade
eram os irmãos que tinha em sua companhia. Seja como for,
Paulo faz alusão a eles como se fossem participantes da
composição da carta (2). Sem dúvida o objetivo disso era
sensibilizar os destinatários ao mostrar-lhes que os apelos
ali constantes não eram fruto das preocupações de uma mente
isolada, mas que essas preocupações eram compartilhadas
por irmãos na fé sinceros, que se uniam a Paulo em suas
exortações, fazendo com ele um coro.
O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA SINGULARIDADE 19
Eis aqui uma forma produtiva de como a igreja deve
demonstrar unidade: aliando-se aos ministros em seus apelos
e exortações, dando assim maior força às suas mensagens e
mostrando aos que estão no erro a reprovação unânime do
povo de Deus. De fato, nada encoraja mais os rebeldes do que
a consciência de que há crentes que não concordam com as
reprovações que lhes são dirigidas.
Como é seu costume, Paulo deseja que seus destinatários
desfrutem da graça e da paz que vem de Deus Pai e do Senhor
Jesus Cristo (3). A graça é o favor de Deus ministrado aos
homens quando estes nada fizeram para merecê-lo. A paz é a
ausência de intrigas nas relações entre as pessoas e também
a serenidade interior experimentada por quem desfruta de
saúde e do suprimento das necessidades em geral. A fonte de
tudo isso, para Paulo, é Deus.
Se, por um lado, o Pai foi descrito como quem ressuscitou
Jesus dentre os mortos (1), no v. 4, ao mencionar novamente
as duas Pessoas, Paulo focaliza Cristo, apontando-o como
aquele que “se entregou a si mesmo por nossos pecados”. A
morte voluntária de Cristo é afirmada aqui (Jo 10.17-18), bem
como o seu sentido teológico, ou seja, o fato de sua morte ser a
satisfação pelos nossos pecados (1Jo 2.2; 4.10). Para os gálatas,
fascinados com a idéia de que a observância da Lei Mosaica
poderia salvá-los, era crucial que Paulo frisasse que somente a
morte de Cristo pôde satisfazer as exigências de Deus. Buscar
satisfazer a justiça divina através de obras humanas seria o
mesmo que afirmar a insuficiência da cruz (Gl 2.21).
Ao sofrer a morte que era a punição pelos nossos pecados,
Cristo não somente teve como alvo nos substituir no castigo
a nós devido. Ao tirar-nos dentre os condenados à morte, ele
conseqüentemente nos resgatou “desta presente era perversa”
(4). O verbo traduzido como “resgatar” é exairew e também
significa livrar ou libertar do poder de outra pessoa. Há aqui
um breve lampejo do tema “liberdade cristã”, presente em toda
´
20 A ESSÊNCIA DO EVANGELHO DE PAULO
a epístola. A “presente era” da qual Cristo nos resgatou é o
atual sistema cultural com seus valores, crenças e apelos.
Trata-se de um sistema que rejeita Deus e, por isso, é perverso
e merecedor de justo castigo.
Cristo sofreu a nossa condenação e, assim, nos libertou deste
mundo condenado. Não somos mais participantes do seu
destino e também não devemos mais ser participantes de suas
práticas e modo de pensar. Fomos tirados de uma Sodoma que
em breve conhecerá o fogo do juízo e, não sendo mais seus
cidadãos, não devermos adotar seu estilo de vida (Rm 12.1-2).
Paulo conclui dizendo que todo esse livramento aconteceu
pela vontade do Pai (Ef 1.5; Tg 1.18). A origem da salvação está
sempre em Deus. É ele quem parte em busca do homem (Gn 3.9;
Os 11.1-2; Lc 19.10). O contrário nunca acontece (Jo 5.40; Rm
3.11). Por isso é natural que a seção termine com o apóstolo
atribuindo e ele “a glória para todo o sempre. Amém.”

Pastor. Marcos Granconato.

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